A ACEITAÇÃO DA HOMEOPATIA

A ACEITAÇÃO DA HOMEOPATIA

Meu filho vivia com a garganta inflamada e o médico queria extrair as amígdalas. Vim aqui e, usando estes remédios, a amígdala atrofiou, as inflamações cessaram e não foi preciso operar.” Histórias como esta, contadas diariamente pelos 30 milhões de brasileiros que, desprezando a medicina comum (a chamada alopatia), buscam nas farmácias homeopáticas soluções para os mais variados males — desde o câncer à sinusite. E inclusive a ninfomania.

Mas o conteúdo dos inúmeros vidrinhos de estranhos rótulos (“Sacharomyces”, “Radi amarila”, “Cuphea”, “Hamamelis”), que se enfileiram nas prateleiras dessas farmácias, ganhou, uma dignidade há muito tempo negada. Ao encerrar o 12.º Congresso Brasileiro de Homeopatia, realizado em São Paulo, o ministro da Saúde, Mário Machado de Lemos, garantia também o seu êxito, assinando o documento que oficializa a Farmacopéia Homeopática Brasileira.

Imutável — Com a publicação do ato no Diário Oficial, as farmácias brasileiras tiveram 45 dias para se adaptar às normas de fabricação dos setecentos remédios relacionados. Até agora, elas eram livres para se guiar pelas farmacopéias francesa, mexicana ou alemã. Mais do que a possibilidade de ditar a composição das drogas, no entanto, os homeopatas esperam do encontro — que reuniu 86 participantes e 22 teses apresentadas, números considerados recorde num país onde apenas 250 médicos dominam esta técnica terapêutica — frutos menos palpáveis a curto prazo, como a transformação da própria imagem.

Embora existam os radicais que se consideram absolutos nos seus domínios, referindo-se à pressa de curar um doente como “coisa de alopatas”, outros preferem se valer de argumentos mais concretos. O dr. Amaro Azevedo, que há trinta anos se dedica “à causa da homeopatia no Brasil”, como costuma dizer, tem, por exemplo, o tempo a seu favor: há vinte anos não passa um atestado de óbito. E, orgulhoso, explica: “Assim como a verdade, a homeopatia não muda. Um remédio que era bom há quarenta anos tem que servir ainda hoje, se a doença é a mesma”.

Similia similibus — Talvez a imutabilidade da terapêutica homeopática seja o ponto nevrálgico em sua velha luta com os alopatas. Porque, segundo estes, ela se baseia em alicerces falsos. Quando o médico alemão Samuel F. C. Hahnemann (1775-1843) começou a construí-los há anos, partiu de uma experiência casual de onde extraiu a máxima da homeopatia: “Similia similibus curantur”. Ao tomar quina sentiu os efeitos do impaludismo, doença que a droga se propunha curar, e isso foi o suficiente para que considerasse a “lei dos semelhantes” (o mal se cura com o mal) mais válida que a regra clássica definida pela alopatia — “contraria contrariis curantur”.
“Por uma dessas intuições que não têm explicação”, conta o presidente da Associação Paulista de Medicina, dr. Alfredo de Ranieri, Hahnemann resolveu diluir a droga em doses centesimais.

Essa diluição, feita em água destilada, álcool, açúcar de leite ou lactose, começa numa proporção de 1 para 100. Uma gota do diluente é dissolvida em mais cem partes e assim sucessivamente, até 30, 40, 10 000 vezes. “Cada diluição é acompanhada de um movimento de vascolejamento (agitação)”, explica o médico Mário Pecego, catedrático da Escola de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro. E acrescenta: “Com isso o medicamento fica imbuído de uma energia, uma vibração, que atua diretamente sobre as células, da mesma forma que os aparelhos eletrônicos recebem energia”.

Erro de observação — Esse processo, responsável pela existência dos remédios que, segundo pesquisa feita pelo Ibope, enchem os armários de 60% das casas brasileiras, encontra oposição total entre farmacêuticos alopatas. Para o dr. Lauro Sollero, titular de farmacologia e terapêutica experimental da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o princípio da dinamização (diluição e vascolejamento) é nada menos que “um erro de observação”. Tanto que, cita ele, um dos maiores farmacologistas do século, Clark, verificou e demonstrou que na décima terceira dinamização a solução não conteria mais que uma única molécula.

Contra tudo — A nova farmacopéia deverá, entretanto, acabar com um dos maiores perigos da diluição, que torna a droga inodora e incolor, possibilitando às farmácias escusos meios de preparar seus remédios. Mais curioso ainda que essa discutível preparação, condenada pelos médicos homeopatas, é o fato de a maioria das receitas ser fornecida pelos próprios balconistas.

Muitas vezes, são eles que medicam grande parte dos quatrocentos fregueses que procuram diariamente a velha Almeida & Cardoso, fundada em 1880 na avenida Marechal Floriano, no Rio de Janeiro, ou a igualmente antiga (1906) Farmácia Murtinho, da praça Clóvis Beviláqua, em São Paulo. Nesta, o próprio de gerente Luís Scalise se encarrega de substituir o falecido fundador, dr. Murtinho Nobre, que costumava recomendar: “É necessário observar a fisionomia o gênio do paciente para que a imagem do doente se assemelhe à imagem característica do medicamento”.

Com todo seu exotismo, a homeopatia tem adeptos variados: 3 000 médicos, só na França; raros estudantes na única faculdade onde existe a cadeira, a de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro; e especialmente os esperançosos clientes, tão atraídos pelo baixo preço dos remédios (3 a 5 cruzeiros em média) quanto pelas amplas promessas do receituário: “aconitum”, contra o medo de morrer, “stramonium” para o estrabismo ou “veratum album” para uma simples palidez.

Sémen congelado
A maioria se preocupa em evitar a gravidez. Muitos, porém, alimentam a obsessão oposta. E para esses, geralmente casais sem filhos, a ciência não parece procurar respostas com o mesmo empenho com que encontrou tantos métodos anticoncepcionais. Mas já há, entre as pesquisas desenvolvidas para aperfeiçoar o processo de inseminação artificial, uma esperança concreta de compensar a esterilidade masculina — o congelamento do sémen.

Mais simples, mais barato e mais prático que os dois já existentes, o processo foi ampliado pelo dr. Mílton Nakamura, responsável pelo setor de esterilidade conjugal do Hospital das Clínicas, São Paulo, com base na técnica empregada em animais pelo professor Nagasse, no Japão. “Basta usar um bloco de gelo seco”, explica Nakamura, “e um tambor de nitrogénio líquido. Nesse bloco abrem-se pequenos orifícios, que se enchem com o sémen misturado numa solução conservadora (a KS Medium, que contém 10% de glicerol, substância que prolonga a conservação). O líquido toma então a forma de “pellets”, espécie de comprimidos.”

No momento da aplicação, os “pellets” são diluídos num banho-maria a 37 graus centígrados e colocados no fundo do útero através de uma seringa, com agulha móvel de platina e dois furos laterais nas extremidades, para facilitar a penetração dos espermatozóides nas trompas. Com a aplicação semanal é possível, segundo Nakamura, conseguir a taxa necessária à fecundação normal.

Adultério científico — Enquanto um tambor de nitrogênio líquido, importado dos Estados Unidos, custa apenas 1 500 cruzeiros, um dos outros métodos de conservação do sémen humano, o da ampola, sai por 80 000 cruzeiros aproximadamente. Nesse dispendioso processo, é necessária uma câmara frigorífica, de temperatura ambiente de 4 graus centígrados, onde uma máquina lacra ampolas de 2 centímetros cúbicos. Estas devem ser capazes de resistir a temperatura de 196 graus negativos, dada pelo nitrogénio líquido. O outro método (o do “strawb” — palheta) também utiliza minúsculos tubos lacrados, de plástico, que são abertos e aplicados diretamente no útero.

Ambos correm o risco de ser substituídos pelo processo do dr. Nakamura – mas os três enfrentam uma barreira comum: a do preconceito. Embora o sistema de inseminação homóloga (com sémen do próprio marido), através dos “pellets”, esteja sendo aplicado em São Paulo — e já existem casos de gravidez —, o da inseminação heteróloga (com sêmen de um doador) ainda não chegou ao Brasil. Para os legisladores tradicionais ela é “uma ofensa moral, um adultério”. Mas há quem atenue a questão, e Nakamura cita o professor Almeida Júnior, que a considera apenas um “adultério científico”.

Categories: Saude

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